Dicas para o conteúdo não encalhar


A Clã é uma empresa de criação de conteúdo. Tentamos transformar assuntos e objetos em histórias valiosas para o nosso público. As organizações e pessoas que contratam nossos serviços também anseiam por conexões com sua audiência, considerando os interesses de sua atividade ou negócio. Muitos profissionais liberais como consultores de carreira, empresas de saúde, artistas e esportistas investem na produção de conteúdo para gerar tráfego em seus sites (inbound marketing) e obter visibilidade. Porém, uma grande parte desse conteúdo acaba ficando na praia!

Gostamos muito de navegar. E, como a fotografia é uma forma de escrita (com luz), escolhi escrever sobre encalhe de conteúdos utilizando o barco acima como personagem. Ele também estava presente na nossa publicação anterior.

Em busca de bons conteúdos

Passeando pela praia fiz algumas fotos dessa escuna, após presenciar o encalhe. Um mês e alguns dias depois e ela já estava assim: uma carcaça, "depenada" até a última peça. A madeira foi incendiada, propositadamente, acelerando o processo de decomposição e facilitando o desmonte. Me contaram que essa é uma prática comum dos proprietários para escapar das multas aplicadas pela Capitania dos Portos, órgão que fiscaliza os barcos no território brasileiro. O restante do processo aconteceu conforme as forças da natureza e ações humanas presentes nesse ecossistema.

Senti a urgência de aprender com aquilo que estava sumindo ali na paisagem. Uma tristeza estranha, misturada com o desejo de salvar o que houvesse de valor naquela situação. O que teria acontecido ali? Não sei explicar, mas imaginei que aquela escuna merecia outro fim. Fiz o que pude... fotografei.

Após 22 anos trabalhando com economia criativa, cheguei à seguinte conclusão:

assim como acontece com os barcos, os conteúdos também "encalham" algum dia. Conhecendo as consequências retratadas acima, entendo que o melhor a fazer nesses casos é desencalhar, o mais rápido possível!

As soluções para um possível encalhe podem tomar diferentes caminhos quando se trata de produção e curadoria de conteúdos. Se houver uma equipe com profissionais envolvidos, é recomendável que busquem juntos quais os parâmetros que definirão se o incidente será um encalhe ou não. Caso você esteja jogando sozinho, tocando numa banda um só integrante, vale à pena também tomar um tempo para rever conceitos. O reconhecimento dos sinais de um conteúdo aproveitável deve vir antes de qualquer operação de "desencalhe".

Experimentei essa situação quando fui contratado para escrever os roteiros de um programa denominado "Cultura é Currículo: lugares de aprender", uma série de vídeos para incentivar a visita aos museus e espaços culturais da cidade.

O processo de criação dos roteiros partiu do seguinte diagnóstico: embora a Secretaria Estadual da Educação de São Paulo oferecesse transporte e todo o apoio para os professores planejarem as excursões com os alunos, os destinos eram sempre os mesmos. Além do Jardim Zoológico (campeão das visitas), poucas opções eram escolhidas no cardápio dos professores. Dezenas de espaços interessantes da cidade continuavam "encalhados" para a comunidade escolar.

- Por que isso acontece?, perguntei.

- Os professores não conhecem as outras opções disponíveis. Se a visita a esses espaços parecer mais atraente para os educadores conseguiremos explorar novos territórios de aprendizagem.

Conclusão: conhecer a falta de interesse sobre aqueles espaços foi fundamental para estruturar o processo criativo. Os vídeos transformaram os hábitos em relação às excursões escolares, o que deu um impulso para serem veiculados também pela TV Cultura durante os intervalos. Assim, durante os finais de semana, um novo público começou a frequentar os Lugares de Aprender após assistir aos seguintes vídeos realizados para o Instituto Butantã, para o Museu da Casa Brasileira, para o Planetário do Parque Ibirapuera, para o Museu de Arqueologia e Etnologia, o Viveiro Manequinho Lopes, entre outros que escrevi pela Clã Criatividade Audiovisual. Com eles conseguimos criar camadas narrativas para diversos lugares da cidade, combinando dramaturgia com a linguagem do entretenimento.

De certo modo, ajudamos as escolas e demais organizações envolvidas a "desencalharem-se" da sua estrutura institucional para dialogarem com um público mais amplo. Desde então, não parei mais de me envolver com iniciativas voltadas à educação, como roteirista e consultor para a formação de professores. Esse mesmo espírito deu vida à série de animação "Traçando Arte", escritos por Cacá Amadei para a Clã. Após duas temporadas no ar, a série conseguiu ultrapassar os muros dos museus para abordar a arte urbana com novas camadas narrativas nas paisagens e percursos de nossa cidade.

And the Oscar goes to...

Os principais museus do mundo oferecem conteúdo digital sobre seus acervos como uma maneira de se conectar com diferentes públicos. Há muitos programas de curadoria digital que servem para a formação do público, apoiando também as mediações que são realizadas pelo setor educativo de cada instituição.

O LCD Awards é uma espécie de Oscar dos museus, organizada pela Leading Culture Destinations. Há até uma categoria específica, denominada Digital Experience, criada para premiar as melhores práticas que a museologia internacional oferece com a criação e mediação de conteúdos digitais.

No Brasil ainda estamos no início desse processo, mas podemos aprender com muitas ações inovadoras que estão acontecendo em outros países.

Recentemente, em sua coluna no Washington Post, o crítico de arte Philip Kennicott abordou algumas experiências que estão atraindo um novo público para os museus norteamericanos. Entre elas, as mudanças de comportamento que estão sendo motivadas pelo uso massivo de aplicativos e plataformas digitais. Não é por acaso que um jornalista experiente, Sree Sreenivasan, assumiu o cargo de Chief Digital Officer no The Metropolitan Museum of Art em Nova Iorque. Nós jornalistas somos treinados para extrair os ingredientes principais de qualquer evento. Recombinando-os em diversos formatos e edições, os conteúdos tornam-se relevantes para quem quer que seja. Há até um termo corrente, familiar tanto para quem trabalha nas redações agitadas do hard news (jornalismo diário) como entre os roteiristas e editores de programas e revistas eletrônicas mais segmentadas: o calhau.

Extremamente útil para preencher o espaço de um programa, ou até a programação de uma emissora de TV, a expressão "calhau" se refere aos conteúdos que ficam "encalhados no arquivo". Me parece um termo pejorativo, afinal na maioria das vezes essas matérias salvam a nossa pele quando precisamos preencher o espaço de algum outro conteúdo mais factual que estava previsto no programa. Pelo fato de ser um conteúdo atemporal (não datado), facilmente re-combinado com outros conteúdos, um "calhau" na hora certa pode virar um grande trunfo para os editores.

Encalhe ou calhau?

Não há uma fórmula para determinar o aproveitamento de conteúdos. Nós tentamos organizar as idéias e referências relacionadas aos projetos em andamento na Clã, separando-as de tudo aquilo que poderia se encaixar em iniciativas futuras. Intuitivamente, cada um dos três sócios também possui o seu método próprio de guardar os materiais destinados ao "setor de reciclagem". São esboços, recortes de jornal, entrevistas ou desenhos que, até ganharem uma nova vida, permanecem "hibernando" em gavetas, caixas ou pastas. Com o tempo, e depois de muita conversa, estamos aprendendo a discernir entre os conteúdos com mais potencial para sustentar as atividades principais da Clã e aqueles que refletem as preferências pessoais por determinados projetos ou causas. Cada um cultiva a sua própria maneira de organizar sua produção. Nos reunimos frequentemente para conversar sobre as possibilidades de novos projetos e sobre o andamento dos trabalhos atuais.

Método Tim Burton de desencalhe

Eu me surpreendi com a coleção de desenhos e rascunhos em guardanapos de papel que o Tim Burton guardou ao longo de 16 anos. É um exemplo incrível porque revela muito de seu processo criativo. Ali na exposição "O Mundo de Tim Burton" encontramos vários personagens e temas que não foram utilizados diretamente em seus filmes, mas que serviram para produções futuras. O material reunido sobre as ideias que foram rejeitadas é tão interessante quanto os rascunhos que ganharam as telas (e a imaginação do público). Vale à pena ver como a organização desses registros apresenta os percursos e escolhas que definiram o estilo desse artista. Aquilo que poderia ser um material encalhado como, por exemplo, os estudos que ele fez para o personagem Frankenweenie (arquivados durante 30 anos!), tornou-se uma joia com a lapidação do artista.

Desencalhar é preciso!

Tenho encontrado colegas desanimados com a falta de investimento no nosso setor, ondas de demissões e desvalorização profissional. A situação é crítica, mas acho que não há motivo para pânico! Mesmo em um cenário de desaquecimento da economia, os conteúdos "encalhados" seguem sendo um capital considerável.

Retomando o exemplo do início, os prejuízos de um barco abandonado são diretamente maiores do que os investimentos necessários para mantê-lo navegando. Nos encalhes há tesouros para quem compra ou vende conteúdos. A tecnologia tem ajudado bastante. A mudança nos ventos pode ser favorável!

Quais plataformas oferecerão um ciclo de vida mais longo para os nossos conteúdos nesse cenário?

Como combinar conteúdos de diferentes plataformas para criar novos ecossistemas?

Ninguém sabe. Descobriremos na prática, colocando premissas à prova.

* Todas as fotos do site e blog são de minha autoria. As fotos do encalhe estão no meu Instagram, um ensaio com 6 cenas captadas em diferentes momentos.

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